A tecnologia ampliou o acesso à psicologia clínica, mas a questão decisiva continua sendo profundamente humana. É preciso encontrar um espaço em que a palavra possa ser escutada com tempo, privacidade e responsabilidade.
Há sofrimentos que chegam fazendo barulho. Outros se instalam discretamente na rotina, misturados ao trabalho, às relações, às responsabilidades familiares e ao esforço de continuar funcionando. A pessoa cumpre compromissos, responde mensagens, participa de reuniões, cuida da casa, atravessa a cidade ou um continente inteiro e, ainda assim, percebe que alguma coisa dentro dela deixou de encontrar lugar.
É nesse intervalo entre o que se vive e o que se consegue dizer que a escuta clínica adquire sentido.
As sessões online de psicologia e psicanálise, que se expandiram intensamente durante a pandemia, permaneceram como parte da prática contemporânea. A tela alterou o meio pelo qual paciente e profissional se encontram. Permanecem, porém, questões que atravessam a clínica desde muito antes da internet. Entre elas estão o tempo da fala, os silêncios, a repetição, a confiança, a transferência, os conflitos, as perdas e aquilo que uma pessoa ainda procura compreender sobre a própria história.
Um estudo internacional publicado na Frontiers in Psychology, realizado com 1.257 terapeutas que passaram a atender online durante a pandemia, acompanhou justamente esse período de adaptação. Muitos profissionais tinham pouca ou nenhuma experiência anterior com o formato remoto. Três meses depois, parte das resistências iniciais havia diminuído à medida que a prática clínica e o domínio do meio tecnológico avançavam. O estudo pode ser consultado na publicação científica.
A experiência daquele período ajudou a distinguir duas questões que às vezes eram confundidas. Uma diz respeito à tecnologia. A outra pertence à relação clínica. Uma conexão de internet pode aproximar duas pessoas geograficamente distantes. A existência de um vínculo terapêutico, entretanto, depende de condições muito mais delicadas.
O lugar onde a palavra acontece
A psicanálise atribuiu à linguagem um lugar central porque aquilo que uma pessoa conta raramente se resume ao conteúdo literal de suas frases. Importam as hesitações, associações, repetições, contradições e os pontos aos quais a fala retorna mesmo quando se pretendia falar de outra coisa.
Escutar, nesse campo, significa acompanhar uma história enquanto ela se organiza diante de quem a narra.
Por isso, uma sessão não se mede somente pela proximidade física entre duas pessoas. Ela depende da possibilidade de criar um espaço suficientemente estável para que algo possa ser formulado sem a urgência de uma resposta pronta.
O atendimento online introduz suas próprias exigências. Privacidade, conexão adequada, ambiente reservado, proteção das informações e continuidade do encontro passam a integrar o chamado setting clínico.
A regulamentação brasileira acompanhou essa transformação. A Resolução CFP nº 9/2024 passou a disciplinar o exercício profissional da Psicologia mediado por Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação. Os Conselhos de Psicologia destacam que esses serviços permanecem submetidos ao mesmo rigor ético e técnico exigido do atendimento presencial. Cabe ao profissional avaliar a adequação da modalidade à demanda apresentada e informar os recursos adotados para preservar sigilo e segurança. Veja as orientações do Sistema Conselhos de Psicologia.
A resposta pertence ao campo clínico.
Quando o sofrimento acompanha a rotina
A discussão tornou-se especialmente relevante porque saúde mental deixou de caber apenas dentro do consultório.
Em atualização publicada em setembro de 2026, a Organização Mundial da Saúde estima que 16% dos adultos em idade produtiva viviam com algum transtorno mental em 2023. Depressão e ansiedade estão associadas à perda estimada de 12 bilhões de dias de trabalho a cada ano e a aproximadamente US$ 1 trilhão anuais em perda de produtividade no mundo. Os dados estão reunidos pela OMS em sua página sobre saúde mental no trabalho.
Os números têm dimensão econômica, mas seu significado humano aparece em escalas muito menores.
Está na pessoa que acorda cansada antes de começar o dia. Na irritabilidade que atravessa a convivência familiar. Na ansiedade que acompanha uma reunião profissional. Na dificuldade de estabelecer limites. No vazio que surge depois de uma conquista esperada durante anos. No casal que conversa muito e parece já não conseguir se ouvir. Na família em que velhos conflitos reaparecem sob novas formas.
O trabalho pode oferecer renda, pertencimento, rotina e propósito. Também pode expor pessoas a cargas excessivas, insegurança, assédio, discriminação, ausência de autonomia e formas persistentes de pressão. A própria OMS trata essas condições como riscos psicossociais e recomenda que saúde mental seja compreendida também a partir das circunstâncias em que as pessoas vivem e trabalham. O Jornalismo Colaborativo abordou essa dimensão em OMS destaca o ambiente de trabalho no Dia Mundial da Saúde Mental.
A clínica individual pode ajudar alguém a elaborar os efeitos subjetivos dessas experiências. Ela tampouco substitui mudanças necessárias no ambiente social ou profissional. Uma pessoa submetida continuamente a condições abusivas precisa de algo além de estratégias para suportá-las.
Essa distinção importa.
Transformar todo sofrimento em problema exclusivamente individual empobrece sua compreensão. Existem dores que nascem da história pessoal. Existem conflitos produzidos nos vínculos. Outros são agravados por precariedade, violência, isolamento, jornadas excessivas e condições concretas de existência.
Frequentemente essas dimensões se misturam.
Casal e família quando o conflito tem uma história
Nos relacionamentos, boa parte do sofrimento aparece como repetição.
A discussão muda de assunto, mas conserva a mesma estrutura. Uma frase antiga volta meses depois. Um silêncio passa a representar muito mais do que a ausência de palavras. Pequenos acontecimentos acionam ressentimentos acumulados, inseguranças e expectativas que cada pessoa trouxe de experiências anteriores.
Na cobertura dedicada à terapia de casal e família, o Jornalismo Colaborativo chamou atenção para esse aspecto. A clínica pode oferecer um lugar em que o conflito deixe de circular apenas como acusação e possa ganhar linguagem e contexto.
Nenhuma relação humana atravessa o tempo sem diferenças.
Amar alguém tampouco oferece imunidade contra ambivalência, frustração ou medo. Intimidade significa conviver com uma pessoa cuja experiência do mundo jamais será inteiramente igual à nossa.
Talvez uma das tarefas mais difíceis de uma relação madura seja justamente sustentar proximidade sem exigir que o outro confirme permanentemente nossa própria versão da realidade.
Em determinadas situações, a terapia de casal ou família permite observar o vínculo como parte do problema e também como parte da história que precisa ser compreendida.
A modalidade online tornou esse tipo de acompanhamento acessível inclusive quando os participantes vivem em cidades diferentes ou enfrentam rotinas que dificultariam encontros presenciais regulares.
Quando viver longe muda também a vida interior
Para brasileiros que moram fora do país, existe ainda outra camada.
Migrar reorganiza muito mais do que endereço.
Mudam horários, relações sociais, hábitos, referências culturais, ritmo de trabalho e formas cotidianas de pertencimento. A pessoa pode conquistar aquilo que buscava e, simultaneamente, experimentar perdas que raramente aparecem nas fotografias de uma mudança internacional.
Há o idioma aprendido para trabalhar e circular. E existe a língua na qual se foi criança.
A diferença pode adquirir enorme importância quando alguém tenta contar uma lembrança, nomear um afeto ou explicar um conflito familiar.
A reportagem do Jornalismo Colaborativo sobre brasileiros que vivem no exterior e procuram cuidar da saúde mental chama atenção precisamente para esse território. Falar na língua materna pode permitir acesso a associações, memórias e nuances emocionais que se tornam mais difíceis quando a experiência precisa ser traduzida antes mesmo de ser narrada.
Uma palavra nunca chega sozinha.
Ela traz época, família, lugar, entonação e memória. Certas expressões carregam experiências que uma tradução correta do ponto de vista linguístico ainda assim pode empobrecer.
Por isso, para algumas pessoas, falar português durante um processo terapêutico significa recuperar uma espécie de continuidade interna em meio à experiência do deslocamento.
O atendimento de pessoas residentes no exterior exige também atenção às normas profissionais aplicáveis. O Sistema Conselhos de Psicologia orienta que o profissional observe a regulamentação brasileira e verifique as exigências existentes no país onde se encontra a pessoa atendida.
A facilidade tecnológica, portanto, amplia possibilidades. Responsabilidade clínica e jurídica continuam fazendo parte desse encontro.
A intimidade diante de uma tela
Há uma aparente contradição na terapia online.
Utilizamos computadores e celulares justamente num período em que boa parte da vida digital é construída para dispersar atenção. Aplicativos competem por segundos. Notificações interrompem pensamentos. Redes sociais transformam experiências em fragmentos sucessivos.
A sessão clínica procura produzir o movimento oposto.
Durante aquele período, uma pessoa interrompe a circulação ordinária e permanece diante daquilo que costuma atravessar rapidamente.
Essa diferença talvez ajude a compreender por que o valor de uma sessão tem pouca relação com a sofisticação da plataforma utilizada.
O recurso tecnológico precisa funcionar bem o suficiente para desaparecer durante o encontro.
Quando isso acontece, a tela deixa de ocupar o centro da experiência. Restam duas pessoas, um tempo delimitado e uma fala que começa por algum lugar.
Às vezes esse começo parece banal.
Um problema no trabalho. Uma discussão doméstica. Uma noite mal dormida. Uma viagem. Um término. Uma preocupação com os filhos.
A densidade de uma experiência raramente está anunciada em sua primeira frase.
Daniela Castro Vitoretti
A psicóloga clínica Daniela Castro Vitoretti, CRP 05/27107, trabalha com atendimento psicológico e psicanalítico e mantém atuação clínica há mais de duas décadas.
Segundo suas informações profissionais, é graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, em Lorena, possui formação em Psicanálise Clínica, participa de formação permanente vinculada ao Corpo Freudiano, Núcleo Barra Mansa, e realizou especialização em Psicoterapia Psicanalítica de Casal e Família pelo Instituto Sedes Sapientiae. Sua trajetória inclui atendimento de crianças, adolescentes e adultos, trabalho com pessoas em situação de vulnerabilidade e experiência clínica voltada também a casais e famílias.
Em entrevistas e conteúdos publicados pelo Jornalismo Colaborativo, Daniela chama atenção para a importância da língua no processo de análise, especialmente no atendimento de brasileiros que vivem no exterior. Sua experiência com sessões online também integra uma transformação mais ampla da psicologia clínica, em que distância geográfica e rotina deixaram de representar, em muitas situações, impedimentos absolutos à continuidade do cuidado.
Sua formação em terapia de casal e família acrescenta outra perspectiva ao trabalho. Determinados sofrimentos tornam-se mais compreensíveis quando examinados dentro das relações em que surgem e se repetem.
Cada história, entretanto, exige uma leitura própria.
Psicologia clínica séria começa justamente onde terminam as respostas universais.
O que permanece quando a tecnologia deixa de ser novidade
Durante alguns anos, falar em terapia online significava falar principalmente da tecnologia.
Esse período passou.
Hoje a pergunta mais interessante está em outro lugar.
Como preservar um espaço de elaboração numa sociedade que exige velocidade? Como sustentar relações quando quase toda comunicação cotidiana acontece sob interrupção? Como perceber a diferença entre continuar funcionando e estar realmente bem? Como reconhecer a própria participação nos conflitos sem transformar toda responsabilidade em culpa?
A psicanálise nasceu muito antes das videochamadas e continuará sendo discutida muito depois das plataformas que utilizamos atualmente desaparecerem.
Seu objeto permanece estranhamente contemporâneo. Ele está naquilo que fazemos com nossa história, nossos vínculos, nossos desejos e com as palavras que encontramos para falar deles.
Tecnologias encurtaram distâncias geográficas.
A distância entre uma pessoa e aquilo que ainda precisa compreender sobre si mesma pertence a outra ordem.
É nessa travessia que uma escuta clínica pode encontrar seu lugar.
