Entrevista

“Mais do que um romance sobre K-pop, é um romance sobre curiosidade”

Cacá Fernandes fala sobre A Garota de Seul, arte, cidades, fotografia e a vontade de descobrir o mundo.

Depois de mais de vinte anos sem publicar ficção, Cacá Fernandes retorna ao romance com A Garota de Seul. À primeira vista, a história parece mergulhar no universo do K-pop feminino, dos escândalos e da indústria do entretenimento. Basta uma conversa mais longa para perceber que esse é apenas o ponto de partida.

Rua iluminada por letreiros coreanos à noite, referência visual de A Garota de Seul
A atmosfera urbana que atravessa o imaginário visual do romance.

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Nesta entrevista, o autor fala sobre o papel das cidades na narrativa, a influência da fotografia, o cinema que moldou seu imaginário, a relação entre publicidade e construção de imagens e a ideia de que a verdadeira geografia contemporânea talvez seja feita menos de países do que de repertórios culturais.

Ao longo da conversa, fica evidente que A Garota de Seul é um romance sobre curiosidade, pertencimento e sobre a maneira como pequenas experiências — um café, uma fotografia, uma música ou um museu — acabam construindo quem somos.

As perguntas em destaque conduzem a leituras complementares publicadas pelo CultPicks, com recortes próprios sobre o romance e o percurso do autor.

Em A Garota de Seul, as cidades parecem ter tanta importância quanto os personagens. Você pensa primeiro nos lugares ou nas pessoas?

Cacá Fernandes: Acho que o olhar de cada personagem sobre uma cidade ou sobre um lugar diz muito sobre quem ele é. Nunca penso no lugar dissociado do personagem. Tento escrever o que aquele lugar representa para aquela pessoa naquele momento específico da história.

O livro reúne um repertório muito particular de restaurantes, fotógrafos, filmes, músicas e museus. Quanto desse universo pertence aos seus personagens e quanto pertence ao próprio autor?

Cacá Fernandes: Esse é meu calcanhar de Aquiles na hora de escrever. O repertório dos meus personagens principais é praticamente idêntico ao meu. Não consigo escrever diferente. Isso até gera uma certa confusão, porque muitos leitores acreditam que todos eles são meus alter egos, o que não é verdade. Mas, sim, acabo escrevendo sobre aquilo de que gosto.

O K-pop é realmente o tema central do romance?

Cacá Fernandes: A máquina de fabricar reputações existe em diversos níveis e em diversas áreas. Eu apenas achei o K-pop — especialmente o feminino — a metáfora mais fiel para representar o mundo em que estamos vivendo hoje.

Você trabalhou durante décadas com publicidade. Hoje acredita que controlamos mais ou menos as imagens públicas do que antigamente?

Cacá Fernandes: Na verdade, acho que controlamos menos. No passado era muito mais fácil construir e administrar uma imagem pública. Basta pensar em artistas como Madonna, Michael Jackson ou Tom Cruise. Existia um controle muito maior sobre a narrativa.

Hoje existe uma falsa sensação de controle. Algoritmos e fanbases criaram um ambiente muito mais imprevisível e distópico do que parece à primeira vista.

Depois de tantos anos sem publicar ficção, por que esse livro precisava nascer agora?

Cacá Fernandes: O tempo e a experiência me ensinaram a entender melhor o papel de cada engrenagem dessa máquina. Mas talvez a principal mudança tenha sido outra: hoje percebo que, no fim, muitas das pessoas que sofrem dentro desse sistema também escolheram viver dessa maneira, de alguma forma.

As referências culturais do romance parecem funcionar como pequenas portas para outros universos. Essa era a intenção?

Cacá Fernandes: Sou muito fã do Woody Allen. Apesar de todas as tentativas de cancelamento, sempre admirei a maneira como ele trabalha essas referências com elegância e humor.

Ele consegue deixar uma referência explícita para quem conhece, mas também desperta a curiosidade de quem nunca ouviu falar daquilo. Acho Meia-Noite em Paris uma obra-prima justamente por isso. Quem não conhece nenhuma das referências consegue aproveitar o filme da mesma maneira.

Era esse equilíbrio que eu buscava.

Retrato em preto e branco de Cacá Fernandes
Cacá Fernandes em retrato institucional em preto e branco
Retratos de Cacá Fernandes.

A fotografia ocupa um espaço muito maior do que a pintura no romance. Por quê?

Cacá Fernandes: Porque essas escolhas também têm função narrativa.

Imagine conhecer uma pessoa que, durante um almoço, cita Picasso, Van Gogh e Monet. Agora imagine outra que cita David LaChapelle ou Robert Mapplethorpe.

Essas duas pessoas dizem coisas diferentes sobre si mesmas apenas pelas referências que escolhem. Era exatamente isso que me interessava explorar.

Seu romance mistura personagens fictícios com lugares, obras e pessoas reais. Você gosta dessa fronteira borrada?

Cacá Fernandes: Muito.

Como fã do cinema independente, gosto dessa sensação de realismo.

Acho até que estava conseguindo isso quando minha mãe, uma das primeiras pessoas a ler o texto final, perguntou se eu não corria o risco de ser processado. Eu ri muito tentando explicar que todos aqueles personagens eram completamente fictícios.

Nova York, São Paulo e Seul parecem formar uma única cidade cultural. Você acredita nisso?

Cacá Fernandes: Totalmente.

Hoje acho que as diferenças não são mais entre cidades. São entre tribos.

Um homem da minha idade, com referências parecidas com as minhas, vivendo em Nova York, provavelmente leva uma vida mais semelhante à minha do que o meu próprio vizinho, que possui outro repertório cultural.

Em nenhum momento você explica demais as referências do livro. Por quê?

Cacá Fernandes: Porque nunca quis que elas fossem obrigatórias.

São como um cheiro, um tempero.

Quem quiser pesquisar vai descobrir um romance talvez mais profundo. Quem não pesquisar absolutamente nada também vai aproveitar a história da mesma forma.

O que mudou entre o escritor de Invisíveis, de Mulheres e o autor de A Garota de Seul?

Cacá Fernandes: Eu era muito mais imaturo.

Julgava meus personagens o tempo inteiro.

Hoje continuo julgando, porque todo autor faz isso em algum nível, mas faço com muito mais parcimônia. Tento permitir que a história aconteça antes de decidir quem aquelas pessoas realmente são.

Se pudesse ouvir um clube do livro discutindo seu romance sem revelar que você é o autor, o que gostaria de escutar?

Cacá Fernandes: Gostaria de ouvir alguém dizer:

“Eu não sei se entendi completamente, mas para mim esse livro é sobre...”

Seria maravilhoso perceber que cada leitor construiu sua própria versão da história a partir das próprias referências e da própria bagagem cultural.

Ainda acho que não alcancei esse nível de complexidade. Para mim, isso continua sendo coisa de gênio.

O que faria um leitor dizer: “esse livro só poderia ter sido escrito por Cacá Fernandes”?

Cacá Fernandes: Acho que um estilo de vida.

Uma maneira de acreditar que a vida acontece justamente quando você encontra uma obra de arte, uma fotografia, um prédio interessante, um café simples, um pão com manteiga, uma música, uma rua, uma sensação.

Para mim, viver sempre foi isso.

Se um leitor dissesse que o livro o fez prestar mais atenção às pequenas coisas da vida, você sentiria que alcançou seu objetivo?

Cacá Fernandes: Não posso dizer que esse era o maior objetivo do livro.

Mas confesso que ficaria muito feliz.

Ainda sinto que estou engatinhando como escritor nesse aspecto. Tenho pouco controle sobre a escrita. Muitas vezes a história acaba se impondo mais do que eu gostaria.

Daqui a vinte anos, quando muitas referências culturais do livro talvez já tenham envelhecido, o que você espera que continue vivo?

Cacá Fernandes: O estranhamento diante do novo.

A vontade de descobrir mundos diferentes sem medo.

E a disposição para mergulhar em uma história de amor que, desde o início, parecia destinada a dar errado.